Entro na loja em busca de um produto para presente. Vejo na vitrine “desconto de 50% em todos os produtos”. Ficou mais atrativo ainda adquirir o presente. Escolho o produto, decido pela compra e vou para o caixa. Surpresa quando o funcionário me diz: “se for no cartão o desconto cai para 40%”.
Naturalmente que neste momento argumentei: “mas o Código de Defesa do Consumidor não diferencia o desconto para pagamento em dinheiro ou cartão”. Aí vem a justificativa padrão: “sou somente uma funcionária, o dono da empresa é que mandou fazer assim”. Saí da loja sem comprar.
Vou ao posto de combustível que coloca a faixa de desconto no valor do álcool, mas somente em dinheiro. Pergunto ao frentista: “não aceita cartão?” A resposta é sim, mas “com o preço normal, sem desconto”.
Outra cena: um amigo acertou um empréstimo bancário. Não recebeu, como de praxe, a via de seu contrato. Manteve contato com o gerente que lhe atendeu, mas em vão, pois sempre está em reunião ou em visita. Não se conformando ligou no tal de 0800. Expôs a necessidade de ter uma via do contrato para controle. A pessoa disse: fale com o gerente da agência. Risos, afinal foram quase dez tentativas sem êxito. Com muito esforço a pessoa disse que enviaria. Mas teria que ser por fax ou e-mail. Este amigo não queria por estes meios. “Me envie pelos Correios” argumentou. A resposta: “não é possível enviar desta maneira”. Conclusão: ainda não recebeu o contrato.
Como esses exemplos poderíamos relatar muitos outros. E sempre vem o dilema: denuncio ou conformo? As empresas despreparadas ou desonestas querem é que o consumidor jogue a toalha e aceite suas condições. Mas isso não resolve. Se conformar não é amadurecer.
Como ocorre em muitas coisas na vida somente mexendo no bolso é que as pessoas aprendem. Foi assim com o uso do cinto de segurança, com a o limite de velocidade, e tantos outros exemplos que só vingaram quando a multa for pesada.
O lamentável é que muitos querem ser empresários e não se preparam para isso. Contratam funcionários e não registram. Vendem o produto e não querem emitir a nota fiscal. Colocam os produtos na vitrine e não mencionam o preço. Oferecem vendas com cartão e imaginam que podem praticar as vendas da maneira que bem entenderem. Não cumprem a garantia legal. Empresas de renome nos colocam para falar com máquinas ou então com atendentes despreparadas, todas terceirizadas, que possuem argumentos no limite do que a tela do computador lhes permitem.
Má fé, despreparo, má vontade, dêem o nome que quiserem, o fundamental é que todos os consumidores exerçam o legítimo direito de fazer cumprir a legislação vigente.
O que é interessante observar que tem empresas que gastam verdadeiras fortunas em publicidade visando atrair os consumidores e são incapazes de ter a percepção que mantendo as práticas aqui descritas só terão consumidores descontentes e presas fáceis para concorrência.
Denunciar ou conformar? Prefiro denunciar.
A desclassificação da seleção brasileira de futebol foi frustrante, entretanto, é questão de sabedoria tirar proveito das derrotas e, em particular, traçar uma relação com a economia nacional.
O Dunga como treinador teve o mérito de resgatar nos jogadores o amor pela camisa brasileira. Não faltou vibração. Também conseguiu harmonizar o grupo, o que é positivo.
Na outra ponta não teve controle emocional. O cargo de treinador de futebol em um país que respira este esporte tem que ser exercido por pessoas mais bem preparadas.
O Dunga confundiu “fechar” o grupo, com “isolar” o grupo. Não lidar adequadamente com a imprensa, ser hostil em suas colocações, tomar como pessoal perguntas normais, enfim, não ter jogo de cintura no dia-a-dia, geram responsabilidades adicionais e a cobrança por resultados é inevitável.
Mas afinal o que isso tudo tem a ver com a economia? Do ponto de vista comportamental a soberba.
A equipe econômica e principalmente o Presidente da República não podem entender que a economia brasileira está madura. Ela está mais blindada, mas não fizemos o básico, que sustente o crescimento. Precisam saber transmitir isso a população sem sofismas, e ter a humildade de reconhecer que temos muito a construir.
O Dunga teve uma trajetória de sucesso em competições menores, porém, isso tudo ficou em segundo plano à medida que a conquista da copa do mundo era o principal objetivo. Na economia é assim: de nada adiantará o esforço pelo controle da economia, se não houver a busca do objetivo maior, que garanta crescimento sustentado. É só analisar um item na economia nacional: a carência de investimentos em infraestrutura.
Além disso, semelhante a alguns jogadores que chegaram fora da melhor condição física, podemos dizer que a carga tributária brasileira é excessiva e os juros internos proibitivos. Fora do padrão desejado.
Tenho dúvidas se o “banco de reserva” da atual equipe de governo é de qualidade ao ponto de poder substituir os titulares com desenvoltura. Esta deficiência foi a tônica da seleção brasileira.
Enfim, no futebol, na política, na vida, nunca pode existir o egocentrismo. A busca excessiva pelo poder isola as pessoas.
Dunga foi vitima de si mesmo e a nossa economia não pode ser vítima de excesso de otimismo, imaginando que com a retomada pura e simples do crescimento econômico, garante ao Brasil uma apreciação como potência econômica. Há muito a fazer.
Agora uma coisa é verdadeira, em termos de popularidade o Presidente Lula está mais para Maradona do que para Dunga, mas mesmo assim, Maradona amargou uma derrota sem precedentes na história da Argentina.
Futebol e economia, dois temas apaixonantes e com muitas semelhanças e que devem ser tratados com muita responsabilidade.
Eu pessoalmente gosto muito da copa do mundo. Reúno a família, os amigos, mudo à rotina e, apesar da queda da produtividade, aproveito o momento. Em quatro e quatro anos, podemos nos dar ao luxo de abrir mão de parte do dia e do trabalho.
Até aí sem problemas. Acontece que, paralelamente a copa do mundo, o governo age. O Banco Central recentemente elevou a taxa básica de juros de 9,5% para 10,25% ao ano e quase não houve repercussão junto aos agentes econômicos. A imprensa explorou pouco a decisão e até mesmo o meio empresarial, normalmente com avaliações mais críticas, se omitiu.
Também neste ambiente de copa os aposentados tiveram a aprovação do reajuste de 7,72%, mas o Presidente Lula vetou o fim do fator previdenciário, também com pouca repercussão.
No vácuo da copa foi aprovado o reajuste aos funcionários da Câmara Federal, com aumentos fora de qualquer padrão e pouco se falou.
Além da perda de foco nas questões mais importantes, o governo continua a retirar recursos importantes da sociedade. Por exemplo, em maio, a arrecadação cresceu 16,5% em relação a 2009, sendo recorde para o mês. Atingiu R$ 61 bilhões. Valor expressivo.
Isso permite ao governo atuar, no que podemos denominar de zona de conforto. Os gastos poderão ser mantidos ou até mesmo crescer, contudo, gastos em rubrica errada, ou seja, custeio, quando os gastos em investimentos é que geram riqueza ao país. Em vez de maiores gastos seria importante desonerar a produção e o consumo, mas isso é pedir demais.
Copa, alegria, curtição, vivência com amigos e família, tudo dentro do contexto, mas deixar de lado o senso crítico, e aceitar que as mesmas práticas do passado, notadamente, quando vivíamos um período de exceção, é no mínimo sermos coniventes com um Estado pouco produtivo e gastador por excelência.
Torcer pelo Brasil sim, mas de olho no ambiente econômico e político, com muita vigilância.