Reinaldo Cafeo – descomplicando a economia


29 de julho de 2010

Denunciar ou conformar?

Categoria: Brasil – Reinaldo Cafeo 18:42

Entro na loja em busca de um produto para presente. Vejo na vitrine “desconto de 50% em todos os produtos”. Ficou mais atrativo ainda adquirir o presente. Escolho o produto, decido pela compra e vou para o caixa. Surpresa quando o funcionário me diz: “se for no cartão o desconto cai para 40%”.

Naturalmente que neste momento argumentei: “mas o Código de Defesa do Consumidor não diferencia o desconto para pagamento em dinheiro ou cartão”. Aí vem a justificativa padrão: “sou somente uma funcionária, o dono da empresa é que mandou fazer assim”. Saí da loja sem comprar.

Vou ao posto de combustível que coloca a faixa de desconto no valor do álcool, mas somente em dinheiro. Pergunto ao frentista: “não aceita cartão?” A resposta é sim, mas “com o preço normal, sem desconto”.

Outra cena: um amigo acertou um empréstimo bancário. Não recebeu, como de praxe, a via de seu contrato. Manteve contato com o gerente que lhe atendeu, mas em vão, pois sempre está em reunião ou em visita. Não se conformando ligou no tal de 0800. Expôs a necessidade de ter uma via do contrato para controle. A pessoa disse: fale com o gerente da agência. Risos, afinal foram quase dez tentativas sem êxito. Com muito esforço a pessoa disse que enviaria. Mas teria que ser por fax ou e-mail. Este amigo não queria por estes meios. “Me envie pelos Correios” argumentou. A resposta: “não é possível enviar desta maneira”. Conclusão: ainda não recebeu o contrato.

Como esses exemplos poderíamos relatar muitos outros. E sempre vem o dilema: denuncio ou conformo? As empresas despreparadas ou desonestas querem é que o consumidor jogue a toalha e aceite suas condições. Mas isso não resolve. Se conformar não é amadurecer.

Como ocorre em muitas coisas na vida somente mexendo no bolso é que as pessoas aprendem. Foi assim com o uso do cinto de segurança, com a o limite de velocidade, e tantos outros exemplos que só vingaram quando a multa for pesada.

O lamentável é que muitos querem ser empresários e não se preparam para isso. Contratam funcionários e não registram. Vendem o produto e não querem emitir a nota fiscal. Colocam os produtos na vitrine e não mencionam o preço. Oferecem vendas com cartão e imaginam que podem praticar as vendas da maneira que bem entenderem. Não cumprem a garantia legal. Empresas de renome nos colocam para falar com máquinas ou então com atendentes despreparadas, todas terceirizadas, que possuem argumentos no limite do que a tela do computador lhes permitem.

Má fé, despreparo, má vontade, dêem o nome que quiserem, o fundamental é que todos os consumidores exerçam o legítimo direito de fazer cumprir a legislação vigente.

O que é interessante observar que tem empresas que gastam verdadeiras fortunas em publicidade visando atrair os consumidores e são incapazes de ter a percepção que mantendo as práticas aqui descritas só terão consumidores descontentes e presas fáceis para concorrência.

Denunciar ou conformar? Prefiro denunciar.

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8 de julho de 2010

A Seleção, o Dunga e a economia

Categoria: Brasil – Reinaldo Cafeo 16:43

A desclassificação da seleção brasileira de futebol foi frustrante, entretanto, é questão de sabedoria tirar proveito das derrotas e, em particular, traçar uma relação com a economia nacional.

O Dunga como treinador teve o mérito de resgatar nos jogadores o amor pela camisa brasileira. Não faltou vibração. Também conseguiu harmonizar o grupo, o que é positivo.

Na outra ponta não teve controle emocional. O cargo de treinador de futebol em um país que respira este esporte tem que ser exercido por pessoas mais bem preparadas.

O Dunga confundiu “fechar” o grupo, com “isolar” o grupo. Não lidar adequadamente com a imprensa, ser hostil em suas colocações, tomar como pessoal perguntas normais, enfim, não ter jogo de cintura no dia-a-dia, geram responsabilidades adicionais e a cobrança por resultados é inevitável.

Mas afinal o que isso tudo tem a ver com a economia? Do ponto de vista comportamental a soberba.

A equipe econômica e principalmente o Presidente da República não podem entender que a economia brasileira está madura. Ela está mais blindada, mas não fizemos o básico, que sustente o crescimento. Precisam saber transmitir isso a população sem sofismas, e ter a humildade de reconhecer que temos muito a construir.

O Dunga teve uma trajetória de sucesso em competições menores, porém, isso tudo ficou em segundo plano à medida que a conquista da copa do mundo era o principal objetivo. Na economia é assim: de nada adiantará o esforço pelo controle da economia, se não houver a busca do objetivo maior, que garanta crescimento sustentado. É só analisar um item na economia nacional: a carência de investimentos em infraestrutura.

Além disso, semelhante a alguns jogadores que chegaram fora da melhor condição física, podemos dizer que a carga tributária brasileira é excessiva e os juros internos proibitivos. Fora do padrão desejado.

Tenho dúvidas se o “banco de reserva” da atual equipe de governo é de qualidade ao ponto de poder substituir os titulares com desenvoltura. Esta deficiência foi a tônica da seleção brasileira.

Enfim, no futebol, na política, na vida, nunca pode existir o egocentrismo. A busca excessiva pelo poder isola as pessoas.

Dunga foi vitima de si mesmo e a nossa economia não pode ser vítima de excesso de otimismo, imaginando que com a retomada pura e simples do crescimento econômico, garante ao Brasil uma apreciação como potência econômica. Há muito a fazer.

Agora uma coisa é verdadeira, em termos de popularidade o Presidente Lula está mais para Maradona do que para Dunga, mas mesmo assim, Maradona amargou uma derrota sem precedentes na história da Argentina.

Futebol e economia, dois temas apaixonantes e com muitas semelhanças e que devem ser tratados com muita responsabilidade.

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24 de junho de 2010

A copa rola e o governo age!

Categoria: Brasil – Reinaldo Cafeo 15:59

Eu pessoalmente gosto muito da copa do mundo. Reúno a família, os amigos, mudo à rotina e, apesar da queda da produtividade, aproveito o momento. Em quatro e quatro anos, podemos nos dar ao luxo de abrir mão de parte do dia e do trabalho.

Até aí sem problemas. Acontece que, paralelamente a copa do mundo, o governo age. O Banco Central recentemente elevou a taxa básica de juros de 9,5% para 10,25% ao ano e quase não houve repercussão junto aos agentes econômicos. A imprensa explorou pouco a decisão e até mesmo o meio empresarial, normalmente com avaliações mais críticas, se omitiu.

Também neste ambiente de copa os aposentados tiveram a aprovação do reajuste de 7,72%, mas o Presidente Lula vetou o fim do fator previdenciário, também com pouca repercussão.

No vácuo da copa foi aprovado o reajuste aos funcionários da Câmara Federal, com aumentos fora de qualquer padrão e pouco se falou.

Além da perda de foco nas questões mais importantes, o governo continua a retirar recursos importantes da sociedade. Por exemplo, em maio, a arrecadação cresceu 16,5% em relação a 2009, sendo recorde para o mês. Atingiu R$ 61 bilhões. Valor expressivo.

Isso permite ao governo atuar, no que podemos denominar de zona de conforto. Os gastos poderão ser mantidos ou até mesmo crescer, contudo, gastos em rubrica errada, ou seja, custeio, quando os gastos em investimentos é que geram riqueza ao país. Em vez de maiores gastos seria importante desonerar a produção e o consumo, mas isso é pedir demais.

Copa, alegria, curtição, vivência com amigos e família, tudo dentro do contexto, mas deixar de lado o senso crítico, e aceitar que as mesmas práticas do passado, notadamente, quando vivíamos um período de exceção, é no mínimo sermos coniventes com um Estado pouco produtivo e gastador por excelência.

Torcer pelo Brasil sim, mas de olho no ambiente econômico e político, com muita vigilância.

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2 de junho de 2010

Atendimento ao consumidor: maior versus veloz

Categoria: Economia – Reinaldo Cafeo 13:32

Pesquisa feita pela consultoria GfK e pela revista do “Consumidor Moderno” apontou que caiu a qualidade no atendimento ao consumidor.

Com vendas em alta as empresas não investiram na estrutura de atendimento, elevando o tempo de espera do consumidor para ser atendido.

Esta constatação é em relação ao telefone e internet.

O fato é que o consumidor está cada vez mais exigente e se as empresas não investirem na qualidade do atendimento, haverá migração para concorrência.

Milhões de reais são gastos no sentido de atrair os consumidores, persuadindo-o as compras e tudo pode ir por água abaixo caso o atendimento não seja satisfatório.

Na era da informação que se transformou em conhecimento não é o maior que engole o menor e sim o mais rápido que ultrapassa o mais lento. Empresas pequenas podem ser ágeis, conquistando e fidelizando seus clientes e, empresas grandes, lentas, podem perder participação no mercado.

A tecnologia tem nivelado os produtos, restando o atendimento como diferencial competitivo.

Empresas modernas, arejadas e voltados para o mercado inverterem a pirâmide hierárquica, colocando no primeiro escalão o soberano consumidor, este que traz a receita para empresa e valorizaram seus colaboradores, estes que são os contatos diretos com os gerados de dinheiro para empresa.

O mercado está em crescimento, o perfil das classes sociais vem se alterando, só para exemplificar, mais de 30 milhões de brasileiros migraram das classes D e E para a classe C, permitindo acessar mais produtos, exigindo em contrapartida qualidade.

Esperar que o consumidor migre para a concorrência por falta de estrutura no atendimento, é no mínimo não entender o desejo deste cada vez mais exigente consumidor.

As empresas precisam investir em treinamento e ampliar o quadro de atendimento, caso contrário serão presas fáceis neste mercado competitivo.

É o momento de se preparar para garantir vendas constantes e em crescimento. Nada justifica atender sem qualidade.

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27 de maio de 2010

Brasil e o voo da galinha

Categoria: Economia – Reinaldo Cafeo 10:05

A expressão “voo da galinha” se consagrou entre os Economistas no sentido de resumir o desempenho da economia brasileira.

A história tem mostrado que, toda vez que o país esboça crescimento econômico acima de 5% a 6% ao ano, este patamar de crescimento não tem sustentação.

Assim, semelhante à galinha, batemos a asa, saímos do chão, mas logo somos obrigados a admitir que não estávamos preparados para alçar voos altos.

O Brasil convive com um Estado “gastador”. Arrecada como nunca e gasta como sempre. Canalização excessiva de gastos em custeio em detrimento aos gastos em investimentos. A máquina pública fica cada vez mais robusta, sobrando poucos recursos para gerar riqueza ao país.

Sem investimento do setor público, o setor privado se recolhe. Quando o setor privado diminui sua capacidade ociosa, a partir de maior consumo das famílias, a resposta de oferta é mais lenta do que a resposta do excesso de demanda, desequilibrando o mercado, ensejando, por exemplo, o aumento da inflação.

Neste contexto o governo entra como paliativo, pois ataca os sintomas sem combater as causas. Os juros elevados, por exemplo, são “remédios” de uso contínuo para combater a inflação.

Com portos obsoletos, estradas precárias não permitindo o escoamento adequado da produção, falta de armazéns, baixa capacidade de geração e distribuição de energia, custo Brasil nas alturas, enfim, uma série e amarras e gargalos, não é possível pensar em outro voo que não seja o da galinha.

A tudo isso chamamos de crescimento sem sustentação.

Pode ser o voo da galinha, o efeito sanfona, dieta inadequada, enfim, utilizem a expressão que desejarem, mas uma coisa é verdadeira: não é possível conviver com esta falta de tendência a longo prazo.

É ruim não crescer, mas é pior crescer e não sustentar, forçando o recuo, para depois voltar a crescer.

Investimentos produtivos somente serão maturados com tendência de crescimento de longo prazo, mesmo que não seja elevado, mas constante.

Uma economia com o potencial da economia brasileira não pode ficar refém de um ciclo vicioso, que alterna crescimento econômico e desaceleração.

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20 de maio de 2010

O Brasil está ou não blindado?

Categoria: Economia – Reinaldo Cafeo 10:22

Em meio à crise americana, que por sinal a cada momento observa novos lances, a pergunta que se apresenta é: o Brasil está mesmo blindado? Em outras palavras: será que o país passará ileso no que se refere às conseqüências da crise imobiliária americana.

O comportamento até este momento indica uma resposta positiva. Talvez pudéssemos substituir a palavra blindado por algo como “melhor preparado”.

Os indicadores são favoráveis: reservas cambiais confortáveis para o padrão histórico brasileiro; relação dívida/PIB em queda; política monetária conservadora; inflação dentro da meta estabelecida; superávit primário, entre outros.

Temos ainda em nosso favor, por incrível que pareça, a maior taxa de juros do mundo, que se apresenta como um verdadeiro oásis para o capital estrangeiro.

A postura conservadora do governo brasileiro nas práticas das políticas fiscal (política tributária e política de gastos) e monetária (juros, compulsório, etc.) garante neste momento mais “robustez” para enfrentar a crise que se apresenta.

A preocupação advém de uma eventual queda da demanda mundial, atingindo fortemente nossas exportações, notadamente de commodities, expoentes de nosso comércio internacional. Isso de certa maneira já se refletiu nas fortes oscilações ocorridas no mercado acionário nesta semana.

Em tempos outros o lado monetário da economia já teria contaminado fortemente o lado real da economia (produção e geração de empregos/renda). A constatação é que as conseqüências ainda são marginais.

Até agora estamos reagindo de forma madura e garantindo que a dinâmica da economia se sobressaia diante das incertezas externas.

Poderíamos neste momento estar muito mais tranqüilos, pois não aproveitamos o “céu de brigadeiro” dos últimos anos para alicerçar ainda mais os fundamentos da economia, mas temos que admitir: estamos enfrentando essa crise em uma zona de conforto, ou seja, melhor preparados.

Isso tudo não pode ser sinônimo de acomodação, pelo contrário, é nesta hora que se deve redobrar a atenção e tirar proveito, afinal, é em momentos de crise que se apresentam as melhores oportunidades.

Não sabemos o tamanho do buraco, entretanto só de já ter caído em um, nos garante outros contornos, diferentemente do passado não muito remoto.

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