O Real continua forte em relação ao dólar. A cotação da moeda norte americana tem atingido patamares do fim do século passado, ou seja, valores de mais de 12 anos atrás.
A combinação de inúmeros fatores tem enfraquecido o dólar. Primeiramente a economia americana está debilitada. Com déficit fiscal em níveis perigosos, saindo de uma crise aguda e com impasses na condução política quanto à redução de gastos e aumento de tributos, a economia americana apresenta um enfraquecimento poucas vezes observado na história mundial. Em resumo: poucos investidores desejam ficar com a moeda de um país que apresenta essas condições.
Além desse aspecto, ou seja, o enfraquecimento da moeda americana, o Brasil possui alguns atrativos importantes aos investidores estrangeiros.
Nosso país pratica a maior taxa de juros do mundo. Se isso não bastasse às agências de análise de riscos têm aumentado a nota brasileira, recomendando aos investidores estrangeiros que aportem seus recursos aqui no Brasil. Também há um enorme mercado consumidor, com fortalecimento da classe média, se apresentando como um verdadeiro oásis aos investidores diretos (investimento na produção).
Isso tudo sem falar na estabilidade política, democracia em consolidação, entre outros aspectos.
Mesmo o Brasil possuindo fragilidades em sua infraestrutura e gargalos que impendem um crescimento sustentado, não há dúvida que esses atrativos todos atraem investidores estrangeiros e a oferta de dólares é ampliada, derrubando a cotação da moeda norte americana.
O governo anunciou novas medidas para conter a desvalorização do dólar, como a taxação em aplicações em derivativos, mas a avaliação é que pouca coisa mudará neste cenário.
Alterações mais profundas poderão vir no longo prazo. A retomada do crescimento econômico americano e a queda dos juros domésticos são exemplos do caminho que poderá ser trilhado.
Enquanto isso não acontece qualquer mexida do governo na questão cambial é semelhante a enxugar gelo, por sinal, já fizemos esta observação em outro artigo publicado há meses, ou seja, na questão cambial o governo continua enxugando gelo, e o que é pior, potencializando esta questão, quando eleva a taxa de juros básica para conter a inflação.
Enxugar gelo continua sendo insano.
As decisões do Copom – Comitê de Política Monetária são tão previsíveis que podemos encaixá-las nas notícias que demonstram estatísticas de dengue, atentados terroristas e tantas outras notícias que não chamam mais a atenção do grande público pela freqüência com que são divulgados, ou seja, não há novidades.
Como o mercado esperava o Banco Central elevou em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros. Alguns apostavam em 0,75, mas ficou mesmo neste patamar, fazendo com que a Selic atingisse 10,75% ao ano.
A obviedade do Banco Central está no fato de que pouco importa o diagnóstico do aumento da inflação brasileira, para os dirigentes daquela entidade o combate deve ser sempre com elevação de juros.
A inflação medida pelo IBGE através do IPCA estava em alta em função do aumento de preços dos alimentos, da habitação e do transporte. Estes três itens puxaram mais da metade da inflação nos primeiros meses deste ano. Além disso, houve aumento no item educação e despesas pessoais.
A pergunta é a seguinte: juros altos não servem para inibir o consumo das famílias em bens financiáveis, ou seja, inflação de demanda?
Se a inflação está sendo puxada por itens não financiáveis e pela alta de preços em função do clima ou elevações sazonais, os juros mais altos não influenciam o comportamento do consumidor.
O remédio está equivocado. As explicações plausíveis estariam no fato de a autoridade monetária demonstrar austeridade ou até mesmo reduzir os preços de outros itens para compensar a elevação nos verdadeiros vilões da inflação brasileira, mas se for isso é no mínimo prejudicar o todo para controlar parte do problema.
Atuar fortemente na cadeia produtiva, abastecer o mercado com produtos importados quando necessário, realizar reuniões setoriais visando acomodação de preços, poderiam ser caminhos alternativos que não engessariam a economia nacional.
Para que isso ocorra é preciso sair da zona de conforto, coisa que o previsível Banco Central não tem vontade de fazer, tampouco o acomodado Ministério da Fazenda.
Por essas e outras é que decisão do Banco Central já não gera manchetes de jornal e não traz novidades na condução da política econômica nacional.
Para não jogar definitivamente a toalha, a esperança é que no debate da sucessão presidencial haja ao menos um espaço para discussões de como aperfeiçoar os instrumentos de controle da política econômica nacional.
Enquanto isso, amarguemos juros maiores, lamentavelmente.
O Banco Central através do Comitê de Política Monetária reduziu a taxa de juros básica da economia brasileira em 1 ponto percentual. A chamada taxa Selic foi fixada em 12,75% ao ano.
Partindo da constatação da queda de preços, por baixa demanda, somada a queda acelerada do nível de atividade econômica, refletida no aumento do desemprego, o Copom não teria outro caminho senão reduzir os juros. Isso sem falar da pressão da sociedade civil organizada.
Essa queda refletirá de imediato no custo da rolagem da dívida interna brasileira. Boa parte dos títulos emitidos pelo governo é remunerada pela taxa Selic.
No decorrer dos meses essa queda poderá, eu disse, poderá, chegar na ponta, ao tomador de recursos.
Acontece que a lógica é: juros básicos menores induzem os intermediários financeiros (bancos, por exemplo) a remunerarem menos quem aplica seus recursos no sistema financeiro, abrindo oportunidade para reduzir os juros de quem precisa dos empréstimos. É uma tendência e não uma certeza, afinal, utilizando a lei de mercado, esses intermediários financeiros podem ou não ampliar o volume de empréstimos. Se não ampliarem os juros não caem. De imediato somente os bancos oficiais anunciaram, via pressão governamental, redução dos juros ao tomador final.
O grande problema no Brasil é que o patamar de juros praticados pelo governo é muito elevado se comparado ao resto do mundo. Os chamados juros reais (descontada a inflação) aqui no Brasil são os maiores do mundo, ficando cerca de 2 pontos percentuais acima da Hungria, segunda colocada no ranking. Além disso os bancos exageram no spread bancário (diferença entre juros pagos a quem aplica e de quem empresta recursos), encarecendo demasiadamente o custo do dinheiro.
Em meio a crise as principais economias capitalistas reduziram drasticamente seus juros. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa básica está abaixo de 1%.
De qualquer maneira esse é o jogo da política monetária: se a prioridade é retomar o crescimento econômico, juros menores. Se a inflação subiu, juros maiores.
Se a redução de um ponto percentual não resolve todos os problemas ao menos retomamos o processo de queda e, finalmente, o Banco Central, começou a entender melhor o lado real da economia.