Um dos grandes problemas enfrentados pelas empresas que possuem a participação majoritária do governo é a interferência política.
Mesmo a gigante Petrobras, que possui acionistas das mais variadas classes sociais (afinal permitiu que os trabalhadores investissem parte do FGTS em sua ações), não ficou imune a esta interferência política.
Com a necessidade de focar nos projetos de investimentos e alavancar recursos para dar velocidade em suas estratégias, a Petrobras trocou de comando.
Sai José Sérgio Gabrielli, mais político, e entra Maria das Graças Silva Foster, mais técnica.
Na prática a Maira das Graças que exercia cargo na Petrobras como Diretora de Gás e Energia tem um perfil muito parecido com o da Presidente Dilma, além de ser de sua inteira confiança. Aos poucos começam a deixar o governo os indicados pelo ex-presidente Lula.
Gabrielli focou sua gestão nas questões financeiras e Foster vem para focar na produção. Mudança importante que nos primeiros momentos do anúncio já observou reação positiva do mercado.
Uma estatal do porte da Petrobras não pode se entregar as questões pontuais de governo. Tem responsabilidade com seus acionistas e com a economia como um todo. Atua em um setor vital para sustentar o crescimento do país e forte influenciadora na composição dos preços dos produtos internos.
Além disso, a empresa precisa viabilizar a exploração no chamado pré-sal, cujos resultados futuros podem permitir a mudança de patamar na geração de riqueza no Brasil.
Administrar uma empresa com tantos desafios não é tarefa fácil e é necessário não perder o foco, garantindo, tecnicamente, sua estratégia no curto, médio e longo prazos.
Espera-se que Maria das Graças conquiste autonomia necessária para implementar mudanças estruturais na companhia e mantenha o apoio, diria, incondicional da presidente Dilma.
O primeiro passo neste sentido foi dado. Resta agora transformar em ações práticas toda a expectativa criada em torno da competência da nova presidente da Petrobras.
Que consigamos ter uma Petrobras mais técnica e menos política.
Considerando o ambiente de incertezas e as previsões menos otimistas quanto ao desempenho econômico brasileiro, a redução na taxa básica de juros promovida pelo Banco Central, reduzindo de 11% para 10,5% ao ano, ficou de bom tamanho.
Mesmos os mais céticos quanto à inflação para este ano estão fazendo coro com o governo aprovando a redução.
A queda de meio ponto percentual não pode ser considerada a solução para potencializar o crescimento da economia este ano, contudo o mais importante neste momento é a sinalização futura em relação à política monetária.
Na era da moeda, o Real, a política monetária deu o tom do controle da economia. Juros nas alturas, contenção do crédito, compulsório elevado, são exemplos de política monetária restritiva, cujo resultado final foi ter conseguido manter a inflação sob controle, mas com um elevado preço no que se refere a obter um patamar mais elevado de crescimento. Evidentemente que a falta de condições estruturais que permitisse um crescimento duradouro e sustentado também forçou o governo a engessar em parte o setor privado, isso sem contar o inchaço do setor público, que ampliou demasiadamente seus gastos.
O atual governo sinaliza com outra perspectiva. Pelo menos no discurso indica que haverá mudança na forma de conduzir o controle econômico. A redução dos gastos públicos e aumento nos investimentos são dois sinais importantes para reduzir a dependência do controle econômico da política monetária.
É evidente que, entre o discurso, a intenção e a prática, há uma enorme distância. É preciso imprimir o senso de austeridade no controle dos gastos, introduzindo o controle qualitativo do destino dos recursos públicos, para depois criar condições, via política fiscal mais austera, para um afrouxamento da política monetária.
O setor privado brasileiro espera com muita ansiedade este momento. É como se um grande animal, saudável, estivesse preso, e esperasse o momento para sair da jaula e correr solto na floresta fazendo o que mais gosta, livre.
O que está posto é que o modelo atual não vai nesta direção. Na dá mais para aceitar que a economia brasileira pratique o que foi consagrado no mercado como o voo da galinha. Todos sabemos que galinha na voa, no máximo consegue alguns impulsos, mas insuficientes para deslanchar em seu voo.
Se há algum momento mais favorável para reduzir a dependência da política monetária, penso que é este, afinal, é em época de crise que os sábios identificam as oportunidades.
O Copom andou bem reduzindo os juros básicos, mas pode fazer muito mais pela economia nacional.
O governo da presidente Dilma Roussef enfrenta um grande desafio em 2012: criar condições no sentido de manter o nível de atividade econômica.
As indefinições na velocidade e forma de recuperação da Europa, somadas ao momento econômico americano, têm levado a uma diminuição na produção brasileira.
De um lado há menor demanda por parte do resto do mundo, de outro lado os agentes econômicos que operam no mercado interno, receosos, estão pisando o pé no freio.
O que temos na prática é uma nítida redução de velocidade da geração de riquezas no Brasil. É como se um carro estive em uma autoestrada a 120 km/h e entrasse em uma estrada mais simples em que a velocidade máxima permitida caísse para 80 km/h por hora. Observem que diminui a velocidade, mas não deixa de andar. Neste exemplo, partimos do princípio que haverá obediência as leis de trânsito.
No caso específico da presidente Dilma o desafio adicional é garantir àqueles que melhoraram sua condição de vida, com mudança de classe social, não sejam afetados. A popularidade da presidente despencaria caso houvesse um retrocesso nesta questão.
Há instrumentos para contornar os efeitos da crise, mas há também a necessidade do controle inflacionário. Por exemplo: é possível continuar reduzindo a taxa de juros. Também é possível abrir mão da tributação de produtos que operam em setores que influenciam toda uma cadeia produtiva, ou seja, ampliar o crédito e reduzir preços com desoneração fiscal, mas sempre de olho nos preços internos.
As enchentes em alguns estados brasileiros e a seca no sul do país afetarão a oferta de produtos agrícolas e haverá uma pressão sobre os preços. Isso vai na contramão de um afrouxamento necessário nas políticas monetária e fiscal.
Vamos ver como a atual equipe econômica conduz este processo e como a presidente Dilma se comporta em momentos como este.
O desafio é enorme, mas a competência tem que ser superior.