Reinaldo Cafeo – descomplicando a economia


24 de February de 2011

Por uma política externa de longo prazo

Category: Economia – Reinaldo Cafeo 8:50

O Brasil iniciou o ano amargando déficit no saldo de transações correntes: US$ 5,409 bilhões. Este resultado é apurado levando em conta o saldo da balança comercial (exportações menos importações de mercadorias), ainda o saldo da balança de serviços (pagamento de juros, remessa de dividendos, pagamento de royalties, fretes e etc.) e o saldo das transferências unilaterais (donativos, entre outros).

No final do ano estimava-se um déficit na ordem de US$ 50 bilhões para o ano fechado de 2011. Para janeiro o número previsto era de US$ 5,5 bilhões, ou seja, o resultado de janeiro atingiu a péssima marca esperada. Em janeiro do ano passado o déficit foi de US$ 3,821 bilhões. Este janeiro foi o pior janeiro desde 1947.

O saldo negativo em transações correntes demonstra o enfraquecimento da balança comercial. O país teve um pífio superávit de US$ 424 milhões. Além deste resultado ruim na balança comercial, a balança de serviços apresentou acentuado déficit: US$ 6,021 bilhões. O ano passado o déficit foi de US$ 3,924 bilhões.

A boa notícia veio do investimento direto, aquele que ingressa no país para o setor produtivo: US$ 2,956 bilhões, acima dos US$ 2 bilhões previstos pelo Banco Central.

Não é de hoje que o setor externo brasileiro não vem bem. A cotação do dólar não se realinha, quer porque o país atrai um volume expressivo de capital estrangeiro, principalmente para especulação, à medida que o Brasil pratica a maior taxa de juros do planeta, quer porque há um enfraquecimento da moeda norte-americana em nível mundial.

As ações do Banco Central no câmbio têm sido inócuas e a cotação não atinge um patamar que permita potencializar o saldo positivo da balança comercial.

Além do enfraquecimento da balança comercial o país paga um preço elevado pela internacionalização de seu mercado. Investimentos estrangeiros no setor produtivo são bem-vindos, mas em determinado momento são devolvidos aos seus países de origem via pagamento de dividendos.

Na prática falta uma política externa de longo prazo. Não se observa estratégia para substituir importações, tendo ainda uma pauta de exportação frágil, com produtos facilmente encontrados em outros países, sem valor agregado que permita aumentar a competitividade internacional.

Com fragilidades internas, principalmente no que se refere ao controle dos preços, que invariavelmente se dá a custas de política monetária restritiva, com juros exorbitantes, o país, mesmo possuindo reversas cambiais confortáveis, não garante a necessária poupança externa.

O pior é que política cambial brasileira entrou em uma fase que, se houver ajuste acentuado no câmbio, elevando sua cotação, haverá comprometimento do controle de preços, posto que a inflação está se distanciando do centro da meta fixada pelo Banco Central, ou seja, 4,5% para este ano. Se mantiver o câmbio como está atualmente, fragiliza as contas externas. É como se estivesse enxugando gelo. Tarefa inglória.



Considerando que o atual governo tem demonstrado que enfrentará os desafios matando os problemas na origem, o que se espera é que haja uma política externa que, se não resolver os problemas imediatos, ao menos construirá uma política de longo prazo, colhendo seus resultados, como ocorreu em outros países emergentes, nos próximos anos. Reservas cambiais confortáveis servem também para isso.

Os números passados não servem para lamentar o que não foi feito e sim para estabelecer estratégias de como resolver os problemas no futuro. Por uma política externa de longo prazo, consistente!

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17 de February de 2011

Gasto em educação: custeio que vira investimento

Category: Educação – Reinaldo Cafeo 10:03

Os governantes não se deram conta que as mudanças estruturais no Brasil passam necessariamente pelo investimento forte em educação.

Como diz Peter Drucker “o planejamento não diz respeito a decisões futuras, mas às implicações futuras das decisões presentes”, e lamentavelmente as decisões passadas que poderiam impactar agora, foram equivocadas.

Estão transformando escolas em atividades mercantis, Professores em prestadores de serviços e alunos em clientes. É uma relação que não fecha.

Na verdade a revolução do conhecimento via educação formal, se dará quando os atores envolvidos entenderem a dimensão que o ato de educar representa.

Os pensadores na área são vozes esquecidas e o modelo atual contempla muito mais estatísticas de quantos frequentam os bancos escolares do que a qualidade do ensino.

Do ponto de vista estrutural os ambientes para ensino/aprendizagem estão distante de ser o ideal. As salas de aula não permitem a concentração dos alunos. As bibliotecas, com raríssimas exceções, não atendem as necessidades básicas do complemento ensino. Isso sem falar na falta de estimulo a leitura, em uma geração moldada pela internet que prefere o caminho fácil e rápido dos resumos virtuais de obras literárias.

No âmbito dos Professores o país entrou em circulo vicioso. A baixa remuneração reduz a atratividade dos profissionais da área, e aqueles que entram no sistema educacional, se quiserem atingir uma remuneração digna, precisam ampliar jornadas, o que impede o devido preparo, portanto, há um comprometimento do ensino na ponta.

Observo que na maioria das vezes não é questão somente de falta de recursos, mas sim falta de gestão.

Educação falha retira competitividade do país, não prepara cientistas no volume necessário e o que é pior, não garante bons postos de trabalho. Sem oportunidades no mercado de trabalho, jovens e adolescentes são prezas fáceis para o crime organizado e para o tráfico de drogas, elevando a insegurança já existente.

Gasto em educação não é custeio, é investimento. Ou se investe fortemente agora, ou as próximas gerações lamentarão tanto quanto a atual geração.

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10 de February de 2011

O desafio do controle inflacionário

Category: Inflação – Reinaldo Cafeo 8:41

O ano de 2011 começou com a mesma preocupação do final de ano: alta dos preços. Tendo como vilões os alimentos e os serviços, a inflação oficial, medida pela IBGE através do IPCA, ficou em 0,83% em janeiro. No acumulado de 12 meses o índice ficou em 5,99%, muito próximo do limite máximo aceitável para meta de inflação que é de 6,5%.

Na depuração da elevação dos preços há componentes preocupantes e outros previsíveis. A chamada inflação gregoriana (calendário gregoriano que se repete todo ano) era previsível. Mensalidade escolar, tarifas de transporte, material escolar, entre outros, todo mês de janeiro tem seus preços reajustados.

Outros serviços como salão beleza, serviços pessoais, entre outros, tiveram seus preços reajustados no vácuo do aumento de outros preços.

Outro fator relevante é queda na oferta de alimentos. Com um clima fora de controle, com chuvas mais intensas que o normal, houve comprometimento da área plantada, e no jogo de oferta e procura os preços dispararam.

O desafio do controle inflacionário está posto. Considerando que o consumo interno está elevado, puxado pelos incrementos de renda e crédito, um instrumento muito utilizado pelo governo é mexer na politica monetária. Juros mais altos e a restrição ao crédito de uma forma geral enxugam a liquidez do mercado, induzindo os consumidores a adiarem suas compras.

Este é instrumento mais previsível, mas há outros. Ampliar a oferta via importação de produtos escassos no mercado interno é outra opção. O dólar barato permite isso, com baixos reflexos interno, se for executado por um curto período de tempo.

Outro caminho seria buscar maior controle de preços através de acordos setoriais. Isso não é sinônimo de injeção de preços, mas sim de acordar uma trégua, evitando que a economia como um todo pague o preço do desarranjo de preços de alguns setores.

Quando, por exemplo, o governo opta pela alta dos juros, todos os setores da economia são afetados. Há produtos que não guardam relação direta com bens financiáveis, portanto, não poderiam ser penalizados para controlar a inflação. Atacar a cadeia produtiva dos focos inflacionários seria um caminho mais trabalhoso, por outro lado, mais eficaz.

Isso tudo sem falar que a solução no longo prazo vem do melhor controle dos gastos públicos.

Enfim, é preciso inovar, fazer diferente, evitando que o crescimento econômico seja comprometido.

Inflação preocupa, mas é possível, saindo da mesmice, controla-la sem penalizar todos os setores da economia.

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3 de February de 2011

Heranças da era Lula: Segundo Ato – Ausência de Investimentos

Category: Economia – Reinaldo Cafeo 9:15

As contas públicas juntamente com as contas externas se apresentam como verdadeiras “heranças” indesejadas da era Lula. Já abordamos a questão externa em outro artigo, vamos, portanto focar as contas públicas.

Os gastos públicos cresceram significativamente nos últimos anos, ao ponto de se contabilizar em 2010 um crescimento muito próximo a R$ 100 bilhões, dos quais, cerca de 90% terem sido destinados ao reajuste de salários.

À medida que o setor público canaliza gastos em excesso para custeio, sobram poucos recursos para investimentos.

Notadamente o governo Federal optou pelo caminho mais fácil na tentativa de pagar suas contas: aumento da tributação.

A combinação gastos crescentes em custeio, com baixo investimento produtivo e aumento na carga tributária tem provocado um desarranjo na economia.

Há um enfraquecimento do setor privado, retirando competitividade, levando o consumidor final a pagar mais caro pelos produtos.

A variável mais preocupante é do investimento. O país investe, em média, algo próximo a 18% do Produto Interno Bruto, dos quais o setor privado responde por mais de 90% do volume.

Não investir na produção é retardar a solução dos problemas estruturais do país. O que adianta aumentar a produção agrícola se não há locais para armazenamento, nem estradas adequadas para escoar a produção? Como exportar com os portos obsoletos? Como crescer a indústria se não há investimentos em geração e distribuição de energia? Isso tudo sem falar nos aeroportos, transporte, entre outros.

Na prática não há um projeto que sustente o crescimento ao longo do tempo. O Programa de Aceleração do Crescimento – PAC tem sido uma tentativa de garantir a sustentação ao crescimento econômico, mas está distante de ser a solução necessária para equacionar os graves problemas estruturais do país.

Se de um lado a era Lula apresentou avanços em várias frentes, de outro lado as “heranças” indesejadas estão cada vez mais expostas. As contas públicas é um das mais importantes.

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1 de February de 2011

Heranças da era Lula: Primeiro Ato – Contas Externas

Category: Economia – Reinaldo Cafeo 9:00

Com o fechamento das contas de 2010 começam a vir a público o desempenho do país em várias frentes. Houve avanços na era Lula em seus oito anos de poder. Esses avanços foram valorizados pela população ao ponto de o ex-presidente ter conseguido fazer sua sucessora. É uma leitura importante e não se pode tirar o mérito.

Entretanto, nem tudo são flores. Alertamos inúmeras vezes sobre alguns pontos vulneráveis na condução da política econômica do país. As contas externas e o déficit nas contas públicas são dois exemplos.

Vamos ao primeiro ato do que denominamos de “heranças” da era Lula: as contas externas.

O saldo de transações correntes ficou negativo em US$ 47,5 bilhões. O dobro de 2009 e o maior desde 1947. Esse valor é apurado somando-se os saldos da balança comercial (registro de exportações e importações), da balança de serviços (juros, dividendos, fretes, viagens internacionais, etc.) e as transferências unilaterais (remessas de recursos de brasileiros residentes no exterior, por exemplo).

Com um Real valorizado o saldo comercial caiu. As exportações não cresceram como deviam e as importações se potencializaram puxadas, além do câmbio, também pelo aumento do consumo interno. Resultado desta combinação: queda de 20% no saldo comercial se comparado a 2009.

Na balança de serviços as saídas se deram por várias frentes. Gastos com viagens internacionais, remessas de lucros e dividendos, pagamento de aluguel de equipamentos, como guindastes e plataformas de petróleo, pagamento de juros, fretes, são alguns exemplos.

Como as transferências unilaterais não possuem grande significado em termos de valor, ao reduzir o saldo comercial e apurar um rombo na balança de serviços, o déficit em transações correntes foi inevitável. As contas externas se salvaram com a balança de capitais. Pagando a maior taxa de juros do mundo o Brasil apresenta forte atração ao capital especulativo. Além disso, os investimentos diretos, para o setor produtivo, foram expressivos: US$ 48,4 bilhões, sendo o Brasil o sexto país no ranking do destino dos investimentos estrangeiros.

O desafio quanto à taxa de câmbio ainda continua. Mesmo o atual governo atuando no sentido de desvalorizar o Real, pouca coisa tem conseguido, sendo que a projeção aponta para um rombo na ordem de US$ 50 bilhões em transações correntes para este ano, ou seja, reproduzirá o péssimo desempenho de 2010. Além do câmbio o país precisa melhorar sua pauta de exportação, implementar uma política de substituição de importações e ganhar em competitividade internacional. É preciso obter ganhos em produtividade e reduzir o custo Brasil.

Heranças podem vir para o bem ou para o mau, mas uma coisa é certa, devem ser assimiladas e quando for para o mau, devidamente equacionadas.

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