29 de julho de 2010
Entro na loja em busca de um produto para presente. Vejo na vitrine “desconto de 50% em todos os produtos”. Ficou mais atrativo ainda adquirir o presente. Escolho o produto, decido pela compra e vou para o caixa. Surpresa quando o funcionário me diz: “se for no cartão o desconto cai para 40%”.
Naturalmente que neste momento argumentei: “mas o Código de Defesa do Consumidor não diferencia o desconto para pagamento em dinheiro ou cartão”. Aí vem a justificativa padrão: “sou somente uma funcionária, o dono da empresa é que mandou fazer assim”. Saí da loja sem comprar.
Vou ao posto de combustível que coloca a faixa de desconto no valor do álcool, mas somente em dinheiro. Pergunto ao frentista: “não aceita cartão?” A resposta é sim, mas “com o preço normal, sem desconto”.
Outra cena: um amigo acertou um empréstimo bancário. Não recebeu, como de praxe, a via de seu contrato. Manteve contato com o gerente que lhe atendeu, mas em vão, pois sempre está em reunião ou em visita. Não se conformando ligou no tal de 0800. Expôs a necessidade de ter uma via do contrato para controle. A pessoa disse: fale com o gerente da agência. Risos, afinal foram quase dez tentativas sem êxito. Com muito esforço a pessoa disse que enviaria. Mas teria que ser por fax ou e-mail. Este amigo não queria por estes meios. “Me envie pelos Correios” argumentou. A resposta: “não é possível enviar desta maneira”. Conclusão: ainda não recebeu o contrato.
Como esses exemplos poderíamos relatar muitos outros. E sempre vem o dilema: denuncio ou conformo? As empresas despreparadas ou desonestas querem é que o consumidor jogue a toalha e aceite suas condições. Mas isso não resolve. Se conformar não é amadurecer.
Como ocorre em muitas coisas na vida somente mexendo no bolso é que as pessoas aprendem. Foi assim com o uso do cinto de segurança, com a o limite de velocidade, e tantos outros exemplos que só vingaram quando a multa for pesada.
O lamentável é que muitos querem ser empresários e não se preparam para isso. Contratam funcionários e não registram. Vendem o produto e não querem emitir a nota fiscal. Colocam os produtos na vitrine e não mencionam o preço. Oferecem vendas com cartão e imaginam que podem praticar as vendas da maneira que bem entenderem. Não cumprem a garantia legal. Empresas de renome nos colocam para falar com máquinas ou então com atendentes despreparadas, todas terceirizadas, que possuem argumentos no limite do que a tela do computador lhes permitem.
Má fé, despreparo, má vontade, dêem o nome que quiserem, o fundamental é que todos os consumidores exerçam o legítimo direito de fazer cumprir a legislação vigente.
O que é interessante observar que tem empresas que gastam verdadeiras fortunas em publicidade visando atrair os consumidores e são incapazes de ter a percepção que mantendo as práticas aqui descritas só terão consumidores descontentes e presas fáceis para concorrência.
Denunciar ou conformar? Prefiro denunciar.
22 de julho de 2010
As decisões do Copom – Comitê de Política Monetária são tão previsíveis que podemos encaixá-las nas notícias que demonstram estatísticas de dengue, atentados terroristas e tantas outras notícias que não chamam mais a atenção do grande público pela freqüência com que são divulgados, ou seja, não há novidades.
Como o mercado esperava o Banco Central elevou em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros. Alguns apostavam em 0,75, mas ficou mesmo neste patamar, fazendo com que a Selic atingisse 10,75% ao ano.
A obviedade do Banco Central está no fato de que pouco importa o diagnóstico do aumento da inflação brasileira, para os dirigentes daquela entidade o combate deve ser sempre com elevação de juros.
A inflação medida pelo IBGE através do IPCA estava em alta em função do aumento de preços dos alimentos, da habitação e do transporte. Estes três itens puxaram mais da metade da inflação nos primeiros meses deste ano. Além disso, houve aumento no item educação e despesas pessoais.
A pergunta é a seguinte: juros altos não servem para inibir o consumo das famílias em bens financiáveis, ou seja, inflação de demanda?
Se a inflação está sendo puxada por itens não financiáveis e pela alta de preços em função do clima ou elevações sazonais, os juros mais altos não influenciam o comportamento do consumidor.
O remédio está equivocado. As explicações plausíveis estariam no fato de a autoridade monetária demonstrar austeridade ou até mesmo reduzir os preços de outros itens para compensar a elevação nos verdadeiros vilões da inflação brasileira, mas se for isso é no mínimo prejudicar o todo para controlar parte do problema.
Atuar fortemente na cadeia produtiva, abastecer o mercado com produtos importados quando necessário, realizar reuniões setoriais visando acomodação de preços, poderiam ser caminhos alternativos que não engessariam a economia nacional.
Para que isso ocorra é preciso sair da zona de conforto, coisa que o previsível Banco Central não tem vontade de fazer, tampouco o acomodado Ministério da Fazenda.
Por essas e outras é que decisão do Banco Central já não gera manchetes de jornal e não traz novidades na condução da política econômica nacional.
Para não jogar definitivamente a toalha, a esperança é que no debate da sucessão presidencial haja ao menos um espaço para discussões de como aperfeiçoar os instrumentos de controle da política econômica nacional.
Enquanto isso, amarguemos juros maiores, lamentavelmente.
15 de julho de 2010
Que a economia nacional vive um bom momento não há dúvidas. Puxado pelo consumo das famílias, com bom desempenho em todos os setores da economia, o Produto Interno Bruto brasileiro será robusto em 2010.
Apesar deste cenário benigno, teremos que conviver com alguns efeitos colaterais indesejáveis.
O primeiro deles já perdeu forças: a inflação. Com juros mais altos, queda de preços de commodities, valorização do real frente ao dólar, os preços já não aumentam na mesma velocidade do primeiro semestre.
Outro efeito previsível é aumento da inadimplência do consumidor. É lamentável que isso ocorra, mas é possível entender porque ocorrerá.
De um lado falta ao brasileiro, na média, senso de planejamento. Muitos ainda pensam como se estivéssemos na época de inflação de 40% ao mês, portanto, levam a vida financeira pessoal embolada. Contraem dívidas sem ter a menor noção se terão recursos para honrá-las. A inflação mascarava essa deficiência, mas com preços estáveis a coisa muda de figura.
De outro lado falta educação financeira. Esses consumidores se preparam para muitas coisas, mas não para lidar com o dinheiro. Tentam manter um padrão de vida incompatível com a renda disponível, se deixando levar pelo ambiente social e, quando caem na real, a dívida já é uma realidade.
Normalmente são presas fáceis do crediário a perder de vista, pois analisam mais o valor da prestação mensal do que o valor total envolvido e a taxa de juros embutida neste crediário.
Analisam se a prestação é baixa em relação à renda, em vez de analisarem se há espaço para assumir mais um gasto dentre tantos já contraídos.
Devemos considerar ainda a elevada taxa de juros. Uma pequena dívida no cheque especial ou no cartão de crédito vira uma bola de neve, com juros extorsivos que podem atingir entre 150 a mais de 400% ao ano, principalmente no cartão de crédito.
Mesmo com o emprego em alta, com melhoria da renda familiar, os gastos sem planejamento levam o consumidor a ter que escolher o que pagar e, entre garantir a sobrevivência da família, priorizando os gastos essenciais, e pagar as prestações assumidas, de gastos supérfluos, é evidente que priorizarão os essenciais, portanto, inadimplência na certa.
Alguns são obrigados a vender patrimônio para evitar o pior. São aqueles que compram o que não precisam e vendem o que precisam.
Sempre é tempo de mudar o rumo das coisas e caberá a cada consumidor a mudança de atitude em lidar com o dinheiro.
O que está em jogo é a manutenção da qualidade de vida.
Não faça parte das estatísticas dos endividados, dos que têm nome sujo na praça e não figure entre os inadimplentes.
Planejar e controlar, sempre!
8 de julho de 2010
A desclassificação da seleção brasileira de futebol foi frustrante, entretanto, é questão de sabedoria tirar proveito das derrotas e, em particular, traçar uma relação com a economia nacional.
O Dunga como treinador teve o mérito de resgatar nos jogadores o amor pela camisa brasileira. Não faltou vibração. Também conseguiu harmonizar o grupo, o que é positivo.
Na outra ponta não teve controle emocional. O cargo de treinador de futebol em um país que respira este esporte tem que ser exercido por pessoas mais bem preparadas.
O Dunga confundiu “fechar” o grupo, com “isolar” o grupo. Não lidar adequadamente com a imprensa, ser hostil em suas colocações, tomar como pessoal perguntas normais, enfim, não ter jogo de cintura no dia-a-dia, geram responsabilidades adicionais e a cobrança por resultados é inevitável.
Mas afinal o que isso tudo tem a ver com a economia? Do ponto de vista comportamental a soberba.
A equipe econômica e principalmente o Presidente da República não podem entender que a economia brasileira está madura. Ela está mais blindada, mas não fizemos o básico, que sustente o crescimento. Precisam saber transmitir isso a população sem sofismas, e ter a humildade de reconhecer que temos muito a construir.
O Dunga teve uma trajetória de sucesso em competições menores, porém, isso tudo ficou em segundo plano à medida que a conquista da copa do mundo era o principal objetivo. Na economia é assim: de nada adiantará o esforço pelo controle da economia, se não houver a busca do objetivo maior, que garanta crescimento sustentado. É só analisar um item na economia nacional: a carência de investimentos em infraestrutura.
Além disso, semelhante a alguns jogadores que chegaram fora da melhor condição física, podemos dizer que a carga tributária brasileira é excessiva e os juros internos proibitivos. Fora do padrão desejado.
Tenho dúvidas se o “banco de reserva” da atual equipe de governo é de qualidade ao ponto de poder substituir os titulares com desenvoltura. Esta deficiência foi a tônica da seleção brasileira.
Enfim, no futebol, na política, na vida, nunca pode existir o egocentrismo. A busca excessiva pelo poder isola as pessoas.
Dunga foi vitima de si mesmo e a nossa economia não pode ser vítima de excesso de otimismo, imaginando que com a retomada pura e simples do crescimento econômico, garante ao Brasil uma apreciação como potência econômica. Há muito a fazer.
Agora uma coisa é verdadeira, em termos de popularidade o Presidente Lula está mais para Maradona do que para Dunga, mas mesmo assim, Maradona amargou uma derrota sem precedentes na história da Argentina.
Futebol e economia, dois temas apaixonantes e com muitas semelhanças e que devem ser tratados com muita responsabilidade.
2 de julho de 2010
Os números das contas públicas em maio confirmam o perfil “gastador” do governo Lula. É o pior resultado para o mês de maio em 10 anos. O déficit atingiu R$ 510 milhões. Só não foi pior porque as estatais, os estados e os municípios seguraram a onda, e apresentaram resultados positivos.
A economia de 2,13% do PIB para atingir o denominado superávit primário (receita menos despesas sem considerar os juros da dívida pública) não foi suficiente para deixar as contas no azul.
Há uma destinação muito forte para gastos em custeio. Mesmo constatando uma maior canalização de recursos para investimentos, o que efetivamente dá o tom nos gastos públicos é a destinação para sustentação da máquina pública. Nos cinco primeiro meses deste ano, as despesas com custeio subiram 25,5% em comparação com idêntico período do ano passado. São mais de R$ 10 bilhões.
O governo tenta minimizar o impacto desta verdadeira gastança, indicando, por exemplo, a melhoria na relação dívida/PIB que em maio caiu para 41,4% do PIB quando o número anterior foi de 41,8%, mas é certo que controlar os gastos públicos será o maior desafio do sucessor de Lula.
Com tudo que vem ocorrendo às metas fiscais não serão cumpridas neste ano. O governo trabalha com meta anual, baixa, de 2,15% do PIB como superávit primário, contudo, na melhor das hipóteses, o país fechará o ano com 1,48% do PIB.
Gastos exagerados em custeio indicam o caminho do aumento dos juros básicos para fechar as contas públicas. A captação junto ao setor privado via emissão de títulos públicos, será intensificada, e as taxas de juros serão majoradas para garantir o maior espaço do Estado na economia.
É lamentável observar que em tempos de lei de responsabilidade fiscal e da necessária transparência das contas públicas, ainda aja espaço para comportamentos irresponsáveis no tocante a condução da política fiscal, emburrando para frente decisões mais impopulares.
Os números não mentem, indicam. Uma adequada leitura desses números estabelece a dimensão da perversa combinação: elevada carga tributaria, gastos exagerados em custeio e baixa qualidade nos serviços públicos.